Organizações da Flórida criam força-tarefa para reproduzir corais resistentes ao El Niño
Mundo – As águas ao largo da costa sul da Flórida estão aquecendo novamente, trazendo consigo o fantasma de uma tragédia ecológica recente. Ainda marcados pela devastadora onda de calor marinho de 2023 — que causou o pior episódio de branqueamento em massa já registrado na região —, cientistas e conservacionistas estão em uma verdadeira corrida contra o tempo. O objetivo é claro: impedir a extinção das espécies de corais na única barreira viva dos Estados Unidos continentais.
Com o alerta da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) sobre a intensidade do atual fenômeno El Niño, considerado o mais forte dos últimos 150 anos, a ameaça de um novo colapso subaquático mobilizou uma força-tarefa sem precedentes.
A “Arca de Noé” dos Corais
Para evitar a perda total das espécies mais vulneráveis, como os corais chifre-de-alce e chifre-de-veado, as equipes de resgate precisaram agir com criatividade e urgência. Ken Nedimyer, diretor técnico da organização Reef Renewal USA, liderou uma operação que ele próprio descreveu como uma verdadeira “Arca de Noé”.
As táticas de resgate imediato incluem:
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Transferência de Profundidade: Dezenas de corais vulneráveis foram retirados de viveiros costeiros e realocados para águas mais profundas e frias.
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Refúgios Terrestres: Espécimes foram transportados para laboratórios equipados com sistemas rigorosos de controle de temperatura, onde permanecerão até que o oceano volte a ser um ambiente seguro.
“Mantê-los vivos é o nosso principal objetivo neste momento.” — Ken Nedimyer, diretor técnico da Reef Renewal USA.
O Trauma do Branqueamento em Massa
O branqueamento ocorre quando o estresse térmico força os corais a expulsarem as algas simbióticas que lhes dão cor e nutrientes. Sem elas, os corais ficam brancos e, se a condição persistir, morrem.
A urgência atual é movida pelo trauma deixado em 2023, quando as temperaturas subaquáticas atingiram alarmantes 33,9 °C em alguns pontos (mais de 2,8 °C acima do normal). O impacto no recife da Flórida, que se estende por cerca de 579 quilômetros, foi catastrófico:
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Mortalidade Crítica: Na região de Florida Keys e Dry Tortugas, as colônias dos vitais corais chifre-de-alce e chifre-de-veado sofreram pelo menos 98% de mortalidade, deixando-os funcionalmente extintos naquelas áreas.
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Impacto Regional: Na costa sudeste, onde a água permaneceu levemente mais fria, as perdas ainda bateram a marca de 40%.
Cynthia Lewis, diretora do Laboratório Marinho de Keys, define o evento passado como “horrível e traumático”, mas ressalta que a comunidade científica hoje está muito mais bem preparada mental, física e estruturalmente para enfrentar o alerta de nível 2 (risco de branqueamento e mortalidade generalizados) já emitido pela NOAA.
Novas Estratégias de Sobrevivência
Para além do resgate emergencial, uma coalizão de 11 organizações da Flórida está implementando soluções de longo prazo focadas na resiliência da espécie:
1. Reprodução de “Super Corais”
Mergulhadores estão coletando óvulos e esperma de corais que sobreviveram à onda de calor de 2023. Em um laboratório temporário instalado pelo Mote Marine Laboratory, esses corais “pais do futuro” estão sendo cruzados na esperança de desenvolver uma geração naturalmente mais resistente a altas temperaturas.
2. Estruturas de Sombreamento
Buscando diminuir o estresse causado pela incidência direta de luz solar e calor, pesquisadores, coordenados por especialistas como Katey Lesneski da NOAA, estão testando a instalação de estruturas de sombra sobre os corais ao largo de Big Pine Key. Este é o primeiro ensaio real em campo durante um evento de branqueamento ativo.
3. Expansão de Tanques Climatizados
Laboratórios, como o de Long Key, adicionaram dezenas de novos tanques de água do mar controlados por maquinário específico, garantindo que os corais não apenas sobrevivam, mas continuem crescendo e se reproduzindo fora do ambiente hostil.
Um Ecossistema Crucial
Desistir não é uma opção para os pesquisadores da Flórida. A preservação deste extenso recife vai muito além da biodiversidade subaquática. Os recifes de coral servem como a primeira linha de defesa da costa da Flórida contra as marés de tempestade geradas por furacões, além de serem o motor econômico para o turismo e o sustento direto das atividades pesqueiras locais.
Sem a intervenção humana imediata frente ao aquecimento extremo, o destino do recife estaria selado. Como conclui Nedimyer sobre as exaustivas horas de trabalho: o resultado de não fazer nada seria a perda irreparável de um dos ecossistemas mais vitais do planeta.


