Na contramão do Boom da IA: Flórida barra investimentos bilionários e fecha as portas para megacentros de dados
Mundo – Enquanto os Estados Unidos vivenciam um investimento recorde de US$ 50 bilhões na construção de data centers impulsionados pela Inteligência Artificial, o estado da Flórida caminha na direção oposta. Inicialmente vista como um paraíso por desenvolvedores devido à energia barata e disponibilidade de terrenos, a região se tornou um campo de batalha onde preocupações ambientais e de infraestrutura estão cancelando projetos colossais.
A corrida pelo domínio da IA transformou os data centers hyperscale (de proporções gigantescas) em um dos ativos mais lucrativos do momento. Nos últimos dez anos, os fundos desse segmento lideraram os ganhos no mercado de REITs (fundos imobiliários) dos EUA. A Flórida, aliando seu rápido crescimento populacional à fama de estado favorável aos negócios, atraiu propostas para ao menos uma dúzia de megaprojetos.
No entanto, a recepção local tem sido de forte resistência. Autoridades e moradores temem que as enormes instalações sobrecarreguem as redes elétricas, suguem os recursos hídricos e tragam poluição sonora para as comunidades. O impacto da mobilização é visível: pelo menos 16 condados e cidades floridianas adotaram ou estudam implementar moratórias que podem paralisar novas análises de projetos por até um ano. Algumas regiões, como os condados de Jackson e Wakulla, foram além e simplesmente baniram a construção dessas estruturas.
As baixas no setor de tecnologia já alcançam a casa dos bilhões. Em Palm Beach, um megaprojeto de US$ 2,6 bilhões, conhecido como Projeto Tango, foi rejeitado pelo conselho do condado. Perto dali, em St. Lucie, uma empresa do Texas desistiu de erguer um complexo de 1,4 milhão de metros quadrados após intensa pressão popular sobre o uso de água e energia. Em Arcadia, os planos de construir um campus de IA no terreno de uma antiga usina de gás natural enfrentaram forte protesto de moradores preocupados com riscos à saúde e barulho.
A postura defensiva ganhou apoio do mais alto escalão político do estado. Em maio deste ano, o governador Ron DeSantis, conhecido por ser crítico a esses empreendimentos, sancionou uma lei que garante a autoridade dos governos locais para rejeitar projetos de data centers, visando proteger os recursos hídricos do estado.
Para os representantes do setor tecnológico, no entanto, essa resistência pode cobrar um preço alto da economia local. Dan Diorio, vice-presidente da Data Center Coalition, alerta que a oposição contínua ameaça a reputação business-friendly (pró-negócios) da Flórida no longo prazo. “É possível investir bilhões de dólares em infraestrutura física no estado ou haverá atritos e entraves constantes?”, questionou Diorio, destacando que, apesar da demanda exponencial por infraestrutura digital, o estado ainda não conseguiu despontar como um destino seguro para o setor.
A dificuldade é tamanha que apenas um projeto de grande escala recebeu sinal verde até agora: o Fort Meade Data Center Campus. Ainda assim, seus desenvolvedores não têm o caminho livre e enfrentam duas ações judiciais em andamento.
Embora o cenário na Flórida seja de hostilidade extrema para as empresas de tecnologia, o sentimento reflete uma tendência nacional silenciosa. Apesar da euforia do mercado e da injeção de US$ 50 bilhões no setor ao redor do país, uma pesquisa da Gallup revelou que sete em cada dez americanos se opõem à construção de um data center em suas próprias vizinhanças. O desafio da era da Inteligência Artificial, ao que parece, não é apenas tecnológico, mas sobretudo territorial.
Créditos: Matéria redigida com base nas informações originais de The Real Deal, The Wall Street Journal e pesquisa Gallup.


