Família Vorcaro tenta barrar na Justiça da Flórida processo que cobra R$ 600 milhões

Mundo – Uma das mais complexas disputas internacionais para reaver recursos ligados à derrocada do Banco Master chegou a uma encruzilhada decisiva nos Estados Unidos. O Tribunal de Falências do Sul da Flórida tem em mãos a responsabilidade de decidir se arquiva ou dá continuidade a um processo de US$ 113,6 milhões (aproximadamente R$ 600 milhões) movido pelo liquidante da instituição financeira brasileira contra parentes do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
O pedido para enterrar a ação antes do julgamento do mérito foi protocolado conjuntamente pela defesa de Henrique Vorcaro (pai de Daniel), Natalia Vorcaro Zettel (irmã) e pela empresa americana Sozo Real Estate. O caso está sob a análise direta do juiz federal Scott Grossman.
A rota até a Flórida: mansão em Orlando e desvios bilionários
A ação faz parte de uma ampla caçada a ativos desencadeada após a liquidação do Banco Master, decretada pelo Banco Central brasileiro em novembro do ano passado. Segundo os autos encaminhados às cortes americanas, a instituição teria sido desidratada por um esquema de desvios que ultrapassa US$ 1 bilhão.
Dessa quantia, o liquidante sustenta que ao menos US$ 113,6 milhões migraram para entidades e pessoas ligadas à família Vorcaro nos EUA. Um dos símbolos mais visíveis dessa transferência de capital é uma mansão de altíssimo padrão em Windermere, condomínio de luxo na região metropolitana de Orlando, cuja compra teria sido bancada com recursos de origem ilícita oriundos do banco.
A defesa dos familiares rejeita integralmente as acusações e sustenta que a ação não tem sustentação jurídica, questionando pontos técnicos como a competência da corte norte-americana, os procedimentos de citação e a fundamentação legal utilizada para cobrar a devolução do dinheiro. Até o momento, não existe condenação definitiva nem determinação de restituição de valores.
Cerco judicial e reveses de Daniel Vorcaro
A ofensiva em solo americano ganhou tração em janeiro, quando a Justiça local acatou o pedido de reconhecimento da falência brasileira sob o Chapter 15 (mecanismo que lida com insolvências transfronteiriças na legislação dos EUA). Daniel Vorcaro chegou a tentar barrar a medida, mas foi derrotado.
A validação deu ao liquidante do banco poderes amplos para operar em jurisdição norte-americana:
- Quebra e solicitação de sigilo de registros imobiliários e bancários;
- Intimação para depoimentos e exigência de documentos;
- Bloqueio ou busca de bens e transferências suspeitas no país.
Tentativas posteriores de frear essas investigações também falharam. Em maio, o juiz federal Raag Singhal barrou um recurso intermediário do ex-banqueiro, extinguindo o pleito por falta de jurisdição. Pouco antes, em abril, o juiz Grossman já havia garantido ao liquidante a prerrogativa de continuar rastreando empresas e movimentações financeiras no país, ainda que impondo balizas para a produção de certas provas no processo principal.
O que está em jogo
Com o embate processual afunilado em debates sobre prazos de notificação e alcance jurisdicional, a decisão do juiz Scott Grossman se torna o fiel da balança.
Se o magistrado acolher a tese da defesa, a ofensiva contra o núcleo familiar de Daniel Vorcaro sofrerá um duro golpe com a extinção prematura da cobrança de R$ 600 milhões. Caso contrário, a Justiça da Flórida abrirá caminho definitivo para que o liquidante passe um pente-fino nas propriedades e contas da família no exterior, mirando a repatriação dos ativos aos credores brasileiros.

