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Violência obstétrica e conveniência: as forças estruturais que barram o parto normal

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Violência obstétrica e conveniência: as forças estruturais que barram o parto normal

Brasil – O que leva tantas gestantes brasileiras a optarem pela cirurgia cesariana ao invés do parto normal? Essa questão é complexa e envolve uma série de fatores psicológicos, sociais e estruturais, como revelou uma recente pesquisa divulgada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). No Brasil, a escolha pela cesariana não é meramente uma decisão individual, mas um reflexo de influências externas e condições contextuais.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que apenas 15% dos nascimentos sejam feitos por cesariana, uma cirurgia essencial em situações de emergência, mas que também apresenta riscos por ser um procedimento complicado e extenso. Entretanto, dados oficiais indicam que as taxas de cesarianas no Brasil ultrapassam 60%, chegando a cerca de 90% no setor privado de saúde. Isso posiciona o Brasil entre os países com as maiores taxas de cesarianas no mundo.

A pesquisa, que se baseou em estudos anteriores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), revelou que sete em cada dez gestantes brasileiras inicialmente desejam um parto normal. O estudo teve como foco entender as razões para a mudança desse desejo durante a gravidez e o processo de parto. Entitulada Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes, a pesquisa entrevistou 94 gestantes e puérperas, além de 37 profissionais de saúde em São Paulo (SP) e Belém (PA), abrangendo tanto a rede pública quanto a privada.

Na capital paulista, 56,19% dos nascimentos foram por cesariana em 2024, com a taxa subindo para 71,05% nos hospitais privados. Em Belém, o cenário é ainda mais alarmante: 69,28% dos partos foram cesarianas, alcançando 80,41% na rede particular. Ambas as cidades têm legislações que garantem o direito da gestante de optar pela cirurgia no momento do parto.

O Unicef identificou que, embora o desejo de uma experiência de parto positiva esteja presente, existem barreiras sociais e estruturais que influenciam a decisão da gestante. Por um lado, muitas participantes relataram que a recuperação mais rápida é uma vantagem ao considerar o parto normal. Contudo, o medo da dor é um fator que frequentemente leva à escolha da cesariana.

As crenças sobre o parto são moldadas por experiências de mulheres próximas, como mães e avós, que compartilham suas vivências e influenciam as decisões das gestantes. Segundo Stephanie Amaral, especialista em Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, muitas mulheres associam o parto normal a experiências traumáticas e violentas, como intervenções desnecessárias e desrespeito no atendimento, criando um imaginário de dor e sofrimento.

Entre as usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS), o desejo pelo parto normal é mais valorizado, especialmente por causa das dificuldades enfrentadas após uma cesariana. A especialista indica que essa escolha se relaciona à necessidade de uma recuperação ágil, visto que muitas mulheres não possuem uma rede de apoio que as ajude após o parto.

Por outro lado, no setor privado, o foco na escolha do parto normal ocorre devido ao entendimento dos benefícios para mãe e bebê, e a maioria se sente apta a buscar uma experiência de parto positiva, frequentemente contratando profissionais que apoiem essa decisão.

Entre os fatores estruturais, a importância das equipes de assistência se destaca como um facilitador e um obstáculo. De um lado, uma equipe de pré-natal bem informada pode atuar diretamente nas escolhas da gestante. No entanto, um alto número de mulheres relata que recebem orientações superficiais durante o pré-natal, não conhecendo a possibilidade de criar um plano de parto que contemple suas preferências.

Além disso, a pesquisa destacou a baixa adesão às atividades de orientação e o início tardio do pré-natal. Muitas gestantes sentem que os profissionais de saúde não as escutam, acreditando que, no final das contas, a decisão sobre o tipo de parto fica nas mãos do médico, resultando em um sentimento de impotência.

As gestantes que utilizam serviços privados costumam se preparar melhor para o parto, muitas vezes mudando de profissional caso sintam resistência em realizar um parto vaginal ou se depararem com abordagens desestimulantes. Outro aspecto importante é a dificuldade de acesso à analgesia, que é amplamente disponível na rede privada, mas escassa em muitos hospitais do SUS.

Para tentar alterar o cenário atual, o Unicef recomenda que se amplie a oferta de analgesia e métodos não farmacológicos para alívio da dor, além de qualificar o pré-natal com informações claras sobre o trabalho de parto, manejo da dor e planejamento reprodutivo.

Incluir parceiros e acompanhantes nas orientações sobre o trabalho de parto também é fundamental, para que apoiem a escolha informada da gestante. Mobilizar figuras como mães, avós e parteiras como aliadas no cuidado ajuda a integrar conhecimentos tradicionais e garantir informações mais confiáveis nos meios digitais.

Para que as políticas públicas realmente apoiem mães antes, durante e após o parto, é necessário garantir um acesso facilitado ao pré-natal, assegurar a recepção e registro do plano de parto nas maternidades, e expandir o acesso à analgesia.

Finalmente, é fundamental revisar os modelos que favorecem a cesariana sem necessidade médica, por meio da criação de um sistema que valorize a segurança das decisões clínicas baseadas em evidências e na transparência na monitoração dos índices de saúde materna e neonatal. Essa é uma mudança necessária para garantir uma experiência de parto respeitosa e caracterizada por dignidade, como preconiza a OMS, promovendo não apenas a saúde das crianças, mas também a das mães.


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