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Tema olímpico gera discussão sobre músicas ufanistas em momentos políticos conturbados do país

RIO — À frente de um comprido telão em que são exibidas imagens de 29 figurantes de diferentes etnias, três artistas se ajeitam para começar a cantar num estúdio da Zona Portuária do Rio. Por coincidência, o dia é a quinta-feira em que foi confirmado o afastamento provisório de Dilma Rousseff da presidência, e eles têm apenas aquela tarde para gravar o clipe de uma música que trata do espírito alegre e batalhador do povo brasileiro. Diz a letra de “Se liga aê”: “A gente acorda todo dia/ E vai à luta, não tem medo da disputa/ A gente quer participar”.

Sergio Mendes, Baby do Brasil e Rogério Flausino entoam os versos da canção patriótica, que chegará às rádios no fim do mês. O projeto de “Se liga aê” começou há quase um ano, mas seu lançamento foi meticulosamente planejado para agora, obviamente não pelo momento político e sim pela proximidade da Olimpíada do Rio. O objetivo de seus produtores é torná-la um hino não oficial dos torcedores brasileiros para os jogos. Mas a turbulência vinda de Brasília pegou, claro, todos de surpresa.

— O ambiente no Brasil está muito politizado, não tinha como imaginar que isso fosse acontecer desse jeito. Mas nosso foco nunca foi político — afirma Luiz Calainho, sócio da Musickeria, empresa produtora de “Se liga aê”. — A ideia foi fazer uma música que valorizasse nosso país.

— Nós mesmos pedimos para os compositores que não deixassem a música cair num ufanismo forçado — acrescenta Afonso Carvalho, outro sócio da Musickeria.

Escrita por Pretinho da Serrinha, Rogê e Leandro Fab, “Se liga aê” tem duas estrofes de seis versos, separadas pelo grudento refrão “Ê se liga aê/ Sou brasileiro e no balanço vou dizer/ Ê se liga aê/ Sou brasileiro e abro os braços para você”. A letra cita, ainda, dez naturalidades, assim como o clipe procura dar conta da imensidão do Brasil ao convidar gente de origens diversas. Mendes, Baby e Flausino, eles próprios representam gerações e histórias diferentes na música brasileira.

— É um encontro inusitado que se tornou um momento mágico — diz Mendes, que vive em Los Angeles e veio ao Rio especialmente para a gravação do clipe. — Eu acho que as músicas são sempre maiores do que essa coisa política. Tanto que várias das grandes canções brasileiras foram escritas na época da ditadura militar.

A proposta de “Se liga aê” é se encaixar num grupo de canções que aproveitam o nacionalismo despertado por grandes eventos esportivos para se popularizar. O Brasil já tem mais de 200 milhões de habitantes, mas até hoje se canta por aí “Pra frente Brasil”, de Miguel Gustavo (“Noventa milhões em ação, pra frente Brasil do meu coração…”), feita especialmente para a Copa de 1970. Anos antes, na Copa de 1958, foi “A taça do mundo é nossa” que se saiu bem, com sua mistura de música e esporte, ao dizer que o brasileiro “ganhou a taça do mundo sambando com a bola no pé”. E, para 1950, antes de o Maracanã viver o maior silêncio do mundo, torcedores cantaram “Marcha do scratch brasileiro”, composta especialmente para a primeira Copa no país por Lamartine Babo. Era difícil ser mais patriótico do que no trecho “Salve nossa bandeira, verde, ouro e anil/ Brasil, Brasil, Brasil”.

A História mostra, porém, que as músicas nacionalistas podem ganhar um outro significado dependendo do contexto político em que são lançadas, à revelia das intenções de seus compositores. “Pra frente Brasil” proclamou que “todo o Brasil deu a mão”, quando na verdade muita gente era torturada na ditadura. Naquela mesma época, vivia-se o dito milagre econômico, e surgiram canções claramente ufanistas, como “Eu te amo meu Brasil”, de Dom e Ravel, que acabou se tornando símbolo do regime militar, ou seja, maldita aos olhos do tempo.

Por outro lado, a também ufanista “País tropical”, de Jorge Ben Jor, foi lançada no período e ainda é amada, não só por flamenguistas casados com “negas chamadas Tereza”. Da mesma forma, hoje ninguém torce o nariz para “Aquarela do Brasil”, o samba-exaltação gravado por Ary Barroso em pleno Estado Novo de Getúlio Vargas. Mas ambas as canções foram questionadas e criticadas à sua época.

— Muitas vezes não é intenção do compositor, mas a música acaba servindo para legitimar uma ideia que está no ar e acaba camuflando os conflitos. O discurso é sempre parecido, o de união em torno do país — afirma o historiador Paulo Cesar de Araújo, autor dos livros “Eu não sou cachorro, não: Música popular cafona e ditadura militar” e “O réu e o rei: Minha história com Roberto Carlos, em detalhes”. — Acho problemático lançar uma canção ufanista no momento por que passamos hoje, quando os símbolos nacionais estão sendo utilizados por esse novo governo para expressar união.

Paulo Cesar reconhece que essas músicas voltam sempre perto de competições esportivas, mas lembra que é possível identificar elementos que aproximem ou afastem o esporte da política:

— Em “Pra frente Brasil” havia uma simbiose entre pátria, governo e esporte. A letra praticamente não usava termos de futebol, ela podia se encaixar em qualquer situação, sobretudo no regime dos generais. Já “A taça do mundo é nossa” é diferente. Ela falava de bola, de gol, de esquadrão de ouro, do universo do futebol.

Mas não se pode esquecer, diz o jornalista João Máximo, que a Olimpíada é um evento político na origem. Pesquisador tanto de música quanto de futebol, autor de obras como “João Saldanha: Sobre nuvens de fantasia” e “Noel Rosa: uma biografia” (escrita com Carlos Didier), ele destaca que o francês Barão de Coubertin tinha em mente a “união dos povos” quando criou os Jogos.

— Esporte e política sempre se misturaram — diz Máximo, repórter e crítico do GLOBO. — E a música também pode se misturar com política. Em 1951, “Retrato do velho”, de Haroldo Lobo e Marino Pinto, saudava o retorno do Getúlio como presidente. Dizia: “Bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar”. Já na ditadura, foi um general que praticamente encomendou “Pra frente Brasil”.

O Brasil de agora está bastante longe de viver qualquer coisa próxima do que foi a repressão militar, mas os outros intérpretes de “Se liga aê” não ignoram que o clima de disputa política é fortíssimo. Por exemplo: enquanto estavam no estúdio para a gravação do clipe, o Ministério da Cultura era extinto, levando a uma onda de protestos virtuais e reais promovidos por artistas. Eles próprios se mostraram indignados.

— Hoje eu já ouvi a música diferente do que ouvi ontem. Mas eu sou otimista, todos nós somos. A Olimpíada pode nos ajudar nesse momento, é um evento mundial de aproximação dos povos — opinou Flausino, pouco antes de entrar no estúdio para rodar o clipe. — Só que acabar com o MinC é desconhecer o que representa a cultura para um país.

— A gente passa por um período crítico, mas o brasileiro sabe se levantar — avaliou Baby. — E “Se liga aê” tem esse lado contagiante de que a gente está precisando. Esporte e música endorfinam. Juntos, são imbatíveis. Só namoro é melhor que isso.


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