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A história de 50 órfãos cariocas levados para trabalhar em fazenda de SP

RIO — Aseleção teria sido feita com um saco de balas. Num orfanato localizado no Flamengo, Zona Sul do Rio, o empresário influente teria jogado os doces na frente de um grupo grande de meninos. Quem mostrasse mais agilidade seria escolhido. No período entre 1932 e 1941, foram 50 garotos, de 9 a 12 anos de idade, a grande maioria negros, levados dali para uma fazenda do interior de São Paulo, onde foram identificados por números, isolados da comunidade e obrigados a trabalhar sem remuneração. “Era que nem um gado que o comprador ia comprar”, diz Aloysio Silva no documentário “Menino 23 — Infâncias perdidas no Brasil”.

Tudo isso, de acordo com o filme dirigido por Belisario Franca, teria ocorrido com anuência do estado brasileiro.

— O que me despertou para essa história é que muitas dessas coisas que aconteceram naquelas duas décadas permanecem acontecendo hoje — afirma Belisario, cujo documentário será exibido no domingo, em competição pela 26ª edição do Cine Ceará, e tem estreia prevista nos cinemas para 7 de julho. — A gente continua vendo crianças desassistidas, continua vendo um salvacionismo à brasileira, uma salvação através da exploração. As mesmas forças ultraconservadoras ainda estão aí e o trabalho escravo ainda existe no Brasil.

“Menino 23” foi originado a partir da tese de doutorado “Educação, autoritarismo e eugenia: exploração do trabalho e violência à infância desamparada no Brasil (1930-1945)”, do historiador Sidney Aguilar Filho, defendida e aprovada em 2011 na Unicamp. Sua pesquisa, porém, começara havia mais de uma década. Em 1998, Aguilar Filho escutou de uma aluna o relato sobre tijolos decorados com suásticas numa fazenda do município de Campina do Monte Alegre, no interior de São Paulo.

Ao longo dos anos, o historiador foi se inteirando de que, naquela localidade, por ação da família que fabricava os tijolos, teria sido realizado um suposto projeto educacional de inspiração eugênica.

— Durante um período da história brasileira houve políticas públicas de segregação e eugenia. A ideia era tirar do Rio, então a capital federal, crianças negras, pobres, órfãs e abandonadas, de cerca de dez anos, e levá-las para trabalhar nas roças em outros estados. Isso foi aceito pelo governo Vargas. As elites consideravam válido, altruísta e justo — afirma Aguilar Filho.

No caso de Campina do Monte Alegre, os responsáveis seriam irmãos de sobrenome tradicional, simpatizantes do nazismo e/ou dirigentes da Ação Integralista Brasileira (a AIB, antigo movimento político fascista). Citados no filme, Otávio, Osvaldo, Sérgio e Renato Rocha Miranda eram netos do político e agropecuarista Barão do Bananal. Sérgio era o proprietário da fazenda Cruzeiro do Sul, onde eram feitos os tijolos com as suásticas e onde também o gado era marcado com o símbolo nazista. Já a fazenda Santa Albertina, para onde foram levados 50 meninos do orfanato Educandário Romão de Mattos Duarte, era cuidada por Osvaldo.

Instituição católica para acolhimento de jovens em situação de risco, o educandário se mantém ativo até hoje e possuiu registros sobre a saída dos meninos em tutela de Osvaldo Rocha Miranda.

— A família tinha uma inserção política, econômica e religiosa. E havia toda a ambiguidade do Getúlio, que incentivou pesquisas de eugenia — diz Belisario. — É uma história importante para podermos encarar uma nova perspectiva sobre os problemas que temos hoje. Somos o país da negação. Negamos, mas somos racistas.

O principal personagem da tese apresentada na Unicamp e também do filme é Aloysio Silva, exatamente o “menino 23” do título. Mas, durante a produção do documentário, outro garoto levado para a fazenda foi encontrado, o marinheiro reformado Argemiro dos Santos. Aloysio morreu em outubro do ano passado, após as filmagens, aos 93 anos. Mas Argemiro está vivo, também tem 93 anos e vive em Foz de Iguaçu.

Como mostra “Menino 23”, Argemiro até hoje sabe cantar o hino integralista, aprendido em seu tempo na fazenda. Ele relata, no documentário, que fugiu de lá aos 15 anos, para deixar uma rotina de trabalho que começava pela manhã bem cedo e seguia até a noite. “Não existia esse negócio de salário”, conta Argemiro, no filme.

Já a maior parte do grupo de meninos teria sido libertada apenas depois de 1942, quando o governo Vargas declarou guerra a Alemanha e Itália, fazendo com que movimentos fascistas passassem a ser mal vistos no país. Para evitar problemas, os proprietários teriam aberto os portões para que os meninos deixassem a fazenda Santa Albertina. Ao menos um, contudo, teria ficado trabalhando no local: o filme traz depoimentos dos filhos de José Alves de Almeida, homem negro já falecido que era conhecido como Dois. Durante anos, Dois foi funcionário dos Rocha Miranda e frequentava suas casas. Alves de Almeida, contudo, é chamado no documentário por seu filho de “Xica da Silva homem”.

Otávio, Osvaldo e Sérgio Rocha Miranda não têm herdeiros conhecidos, mas Renato tem. Seu neto Mauricio Rocha Miranda vem contestando a versão apresentada na tese há mais de três anos. Em dezembro de 2012, ele enviou uma carta ao reitor da Unicamp chamando a pesquisa de Aguilar Filho de “sensacionalista e oportunista” e reclamando que sua família foi acusada sem o direito de resposta. Em fevereiro de 2013, criou um blog (familiarochamiranda.com), em que reúne informações sobre o caso. Já em janeiro de 2014, publicou um vídeo de 40 minutos no YouTube, em que ele próprio entrevista moradores da região que negam a história.

Mas, no final de “Menino 23”, aparece uma mensagem informando que “Mauricio Rocha Miranda recusou-se a dar um depoimento para o filme”.

— Eles me procuraram com o filme já feito e não quiseram me mostrar. Como eu ia falar sem poder ver o filme? Agora estamos estudando que medidas judiciais adotar contra a produtora. Não há o menor fundo de verdade naquilo. Fizeram uma novela, usando o nome da minha família — afirma Mauricio. — A família era integralista e não havia qualquer pecado nisso. O Sérgio era simpatizante do nazismo, frequentava exposições com o gado marcado e ninguém reclamava. No início não havia a visão que temos hoje do nazismo. Quando Hitler começou a fazer as loucuras dele, o Sérgio imediatamente parou de usar a marca.

Mauricio argumenta ainda que os meninos receberam educação na fazenda de Osvaldo.

— Minha tia-avó Alda, conhecendo as condições miseráveis do educandário, propôs ao Osvaldo a construção de uma escola profissionalizante para menores carentes. Getúlio incentivava esse tipo de coisa — diz Mauricio. — Na tese, fala-se de palmatória. Qual escola brasileira não tinha palmatória na década de 1930? Obviamente havia controle sobre eles, porque estavam sob responsabilidade da família, mas dizer que eles foram escravizados é um absurdo.

Belisario, por sua vez, diz compreender a reação de Mauricio:

— Imagina alguém ser membro de uma família com passado glorioso e de repente se confrontar com uma história assim. É claro que causa incômodo. Mas a tese foi aprovada na Unicamp e premiada pela Capes. E nós ainda fomos além no documentário, encontrando mais um menino. Foi um trabalho longo e abrangente.


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