“Um ser humano gentil e pacífico”: professor da Ufam morto ao tentar salvar vizinhos de chacina é homenageado

Manaus – A brutalidade que interrompeu a vida de três pessoas no bairro São Jorge na última segunda-feira (17) contrasta dolorosamente com a personalidade de uma de suas vítimas. O professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Guilherme Pereira Lima Filho, de 66 anos, morto ao entrar em luta corporal com o assassino para tentar salvar seus vizinhos dos golpes de martelo, tem recebido uma enxurrada de homenagens nas redes sociais.
O crime de latrocínio, motivado por uma dívida de R$ 19 mil do assassino com agiotas, chocou a comunidade acadêmica e a sociedade amazonense, que agora se despede de um educador descrito de forma unânime como pacífico, solidário e inspirador.
Legado na Educação
A relação de Guilherme com a Ufam atravessou décadas. Licenciado em Pedagogia pela instituição em 1988, ele ingressou como docente da Faculdade de Educação (Faced) em 1992. Possuía um currículo extenso: era especialista em Metodologia do Ensino Superior (1994) e em produção de materiais didáticos para ensino a distância (2006), mestre em Engenharia de Produção (2002) e doutor em Ciências da Educação (2018).
Em nota oficial, a Ufam lamentou profundamente a perda e destacou o impacto do docente nas salas de aula: “Sua trajetória acadêmica foi marcada pela dedicação ao ensino e à formação de professores, especialmente na prática extensionista.”
A universidade ressaltou ainda a forte atuação de Guilherme nas áreas de formação inicial e continuada, tecnologia assistiva, mediação pedagógica e na popularização da ciência e tecnologia para estudantes da educação básica.

Repercussão e Luto nas Redes
No Facebook do professor, amigos, alunos e colegas de profissão transformaram o choque em palavras de carinho e indignação. O colega da Ufam, José Alcimar de Oliveira, do departamento de Filosofia (IFCHS), publicou um texto emocionante que foi amplamente compartilhado na rede, destacando o temperamento da vítima:
Perfil pacífico e de luz: “Professor Guilherme. Presente! Ainda estou impactado com a notícia do assassinato […] Conheço o amigo professor Guilherme há quase 40 anos. Pessoa comprometida com a educação, educador competente e generoso, de perfil caboclo e pacífico, sempre com um largo sorriso e um modo bem humorado de ser. Nele nunca vi o menor sinal de agressividade ou de violência, verbal, simbólica ou física. Como é frágil e movediço o equilíbrio no qual transcorre uma vida. Nunca sabemos a cada minuto da existência da tragédia que nos espreita no momento seguinte. Nossa solidariedade e sentimento de conforto espiritual à esposa, família, parentes, amigas e amigos do professor Guilherme, bem como dos parentes vítimas dessa brutal e injustificável violência.”
Para os ex-alunos, a marca deixada por Guilherme vai além do currículo Lattes. Mosanir Da Costa Santiago, ex-aluno de pedagogia, resumiu o sentimento de admiração em uma publicação:
“O professor Guilherme Lima Filho foi uma das pessoas mais doces que conheci. Nunca o vi com raiva ou triste. Foi meu professor no curso de pedagogia da UFAM, e sempre querido por todos. Foi um ser muito gentil, solidário e do bem. A notícia do seu assassinato foi horrível. Todos que o conheciam ficaram horrorizados. Vai fazer falta, fez história.”
A paixão pelo ensino permeava até mesmo os momentos de lazer de Guilherme. Um amigo próximo destacou as contribuições do professor para o estado e clamou por justiça rápida:
“Meu amigo, foi com muito pesar que recebi esta triste notícia. O professor Guilherme Lima Filho contribuiu muito para a formação de inúmeros professores de nossa cidade e também de nosso Estado. Durante sua passagem aqui, mesmo não tendo o privilégio de ser seu aluno, pude me tornar seu amigo, almoçamos várias vezes juntos e sempre o tema foi educação. Seu legado jamais será esquecido. Que o Estado tenha uma rápida resposta diante deste crime hediondo. Descanse em paz, caro amigo. Justiça!!”
Outros amigos e conhecidos também usaram a rede social para expressar a dor da perda, ressaltando o quão injusta foi a partida do educador:
“Que tristeza… Um excelente professor: competente, alegre, muito gentil e educado. Guilherme Lima Filho sua vida foi ceifada com tanta crueldade!!!”
“Poxa, tô muito impactado com a partida precoce e trágica do Guilherme. Ninguém merece isso, tampouco o Guilherme, um cara terno, amigo e em paz com a vida.”
“Muito triste e assustador! Um amigo gentil e sempre muito sensível. Grande perda!”
“Lamentável perda. Era um sujeito muito educado e querido. Nunca estamos preparados para perdermos um amigo especial, siga em paz companheiro.”
Relembre a Tragédia
O professor Guilherme foi uma das três vítimas fatais do ataque ocorrido em uma residência na Avenida São Jorge, zona oeste de Manaus. Segundo as investigações conduzidas pelo delegado Ricardo Cunha, da Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS), o assassino invadiu o imóvel para matar e roubar o próprio ex-sogro, Francisco das Chagas Moraes Santos (67), a fim de pagar uma dívida com agiotas.
Guilherme, que morava no primeiro andar, ouviu os gritos de Francisco e de sua filha, Isabella Coelho Moraes (29) — também assassinada —, e subiu para tentar intervir. Desarmado, o professor tentou conter o agressor, mas foi brutalmente golpeado na cabeça com um martelo e morreu no local. Uma quarta vítima, Dilma Cilene Lima Sampaio (53), sobreviveu ao ataque e segue internada no Hospital Dr. João Lúcio Pereira. O autor do crime foi preso poucas horas depois.


