Trabalhadores do Hospital Adventista de Manaus denunciam assédios, calotes e até perda do adicional de insalubridade e plano de saúde; veja vídeo
Manaus – O que deveria ser um ambiente focado no cuidado e na excelência médica tem se transformado em cenário de adoecimento e desespero para quem atua na linha de frente. Uma série de denúncias feitas por funcionários e ex-funcionários do Hospital Adventista de Manaus revela um panorama alarmante de precarização do trabalho, cortes abruptos de benefícios, assédio moral e manobras contratuais que afetam diretamente a vida de dezenas de famílias de colaboradores do hospital.
As denúncias, formalizadas ao SINDPRIV-AM nesta segunda-feira (9/3), incluem relatos de crises de ansiedade coletiva e sobrecarga extrema, e desenham o perfil de uma gestão que, segundo os trabalhadores, prioriza a aparência em auditorias em detrimento da saúde física e mental de seu quadro de colaboradores.
A instabilidade começou a se agravar com movimentações administrativas obscuras. De acordo com denúncias e documentos do eSocial, a gestão do hospital realizou a transferência de funcionários para outro CNPJ do mesmo grupo econômico. A medida foi tomada sem notificação prévia, resultando na perda de direitos adquiridos pelos trabalhadores e gerando insegurança jurídica.
Somado a isso, os colaboradores relatam atrasos constantes no pagamento de horas extras—o que tem causado graves dificuldades financeiras—e acusam a instituição de irregularidades nos depósitos do FGTS (“mexeram até no FGTS”, desabafou um dos denunciantes).
Cortes Frios: Plano de Saúde e Insalubridade
No dia 21 de setembro de 2025, os funcionários foram surpreendidos com uma decisão drástica: o cancelamento do plano de saúde, comunicado um dia antes ou, em muitos casos, descoberto apenas no momento do uso.
O impacto foi devastador. Uma colaboradora diagnosticada com Púrpura Trombocitopênica Idiopática relatou ter tido o convênio cortado às vésperas de uma cirurgia para retirada do baço, ficando desassistida no meio do tratamento. Enquanto a base perdia o benefício, denúncias apontam que chefias, gestores e seus familiares continuaram usufruindo de privilégios de saúde intactos.
Além da perda do convênio, o adicional de periculosidade/insalubridade, antes de 40%, foi reduzido arbitrariamente para 12% para profissionais que atuam na UTI, tomografia computadorizada, limpeza e transporte de pacientes. Técnicos de enfermagem relatam que continuam sendo obrigados a atender pacientes em isolamento de contato (com risco biológico previsto na NR-15) sem a devida compensação financeira.
Ao buscarem o setor de Recursos Humanos para pedir explicações, as respostas beiraram o escárnio. Frases como “se as coisas estão ruins, peça demissão” e “só os fortes permanecem” foram ouvidas pelos trabalhadores.
Sobrecarga
Com as recentes demissões em massa, o fluxo de trabalho tornou-se insustentável. A sobrecarga chegou a um ponto em que técnicos de enfermagem estão assumindo de 7 a 8 pacientes simultaneamente na escala, incluindo acamados de alta complexidade. A prática fere diretamente as diretrizes da escala de Fugulin, que determina a proporção segura entre profissionais e pacientes.
O reflexo dessa sobrecarga já é sentido nos corredores. Acompanhantes e pacientes têm reclamado frequentemente da queda na qualidade do atendimento, muitas vezes direcionando a culpa e a agressividade aos colaboradores exaustos, enquanto a direção se omite. “Nós não somos máquinas. Somos profissionais que merecem respeito. Hoje, infelizmente, vi colegas passando mal, chorando e tendo crises de ansiedade”, desabafou um profissional.
Maquiagem de Auditoria e Assédio Institucionalizado
A cultura de pressão no Hospital Adventista de Manaus parece se estender à área que deveria proteger a saúde mental da equipe. Denúncias gravíssimas apontam que a psicóloga do Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho (SESMT) atua de forma antiética, violando as diretrizes do Conselho Regional de Psicologia (CRP). Segundo os relatos, ela vaza confidências dos funcionários para a diretoria, usa os relatos para fazer pressão psicológica durante trocas de função e chega a debochar abertamente dos colaboradores.
O ambiente tóxico também acoberta casos ainda mais sombrios. Há denúncias de que um ex-gerente de segurança assediava colaboradores, oferecendo dinheiro em troca de favores sexuais, caso que teria sido abafado pela instituição.
A hipocrisia na gestão também é apontada nos momentos de avaliação externa. Trabalhadores relatam que, às vésperas de visitas da equipe de acreditação ou de auditorias, são obrigados a “correr feito loucos” realizando funções fora de suas atribuições apenas para forjar um cenário de excelência irreal. Campanhas de arrecadação em datas comemorativas, como Dia das Crianças e Natal, também funcionam sob pressão quase obrigatória para que a diretoria “ganhe holofotes”.
A equipe de reportagem mantém este espaço reservado para um pronunciamento da direção do Hospital Adventista de Manaus. Caso a instituição envie um comunicado oficial sobre as denúncias de transferência irregular de CNPJ, cortes de insalubridade, assédio moral e negligência com a segurança dos trabalhadores e pacientes, o conteúdo será atualizado.










