Mãe atípica expõe abandono após CAIC TEA recusar receber os filhos dela: “O Governo é só mentira, até hoje eu não consegui uma só vaga”; veja vídeo

Amazonas – A realidade da inclusão e do suporte ao autismo no Amazonas esbarra em um abismo entre o discurso oficial e a vivência das famílias. Em Manaus, a dona de casa Marizane, moradora de uma área de risco no bairro Alvorada, chegou ao limite da exaustão física e mental. Mãe de três filhos diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA), ela se vê forçada a tomar medidas extremas para proteger sua própria família: amarrar o filho de 11 anos, Isaac Vieira Canto, com um fio de telefone para impedir que ele destrua a pequena casa de dois cômodos ou se machuque.
A situação de Isaac é complexa e documentada. Laudos médicos emitidos em abril e junho de 2026 confirmam que o menino possui TEA nível 3 de suporte (o grau mais severo), associado a Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e deficiência intelectual grave. Os documentos apontam que Isaac apresenta comportamento agressivo, hiperatividade motora, não controla os esfíncteres — fazendo necessidades fisiológicas no chão —, não fala e usa fraldas 24 horas por dia.
As prescrições médicas são claras e urgentes. Neuropediatras e psiquiatras da própria rede estadual, como do CAIC Alberto Carreira e do ambulatório psiquiátrico, atestam a necessidade de acompanhamento multidisciplinar crônico. A criança requer Terapia ABA (Análise do Comportamento Aplicada), além de sessões semanais com psicólogo, fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional, bem como um mediador escolar. Na prática, Isaac não recebe nenhum desses atendimentos.
A espera interminável e a porta na cara
O calvário de Marizane se agrava nas filas do Sistema Nacional de Regulação (SISREG). Uma guia de solicitação expõe o pedido de urgência para atendimento psicológico, com a justificativa de “quadro de agitação extrema e comportamento inadequado”. Segundo a mãe, o tempo passa e a resposta não chega.
Quando buscou atendimento presencial no CAIC+ Juventude, localizado no bairro São Geraldo, no dia 15 de julho de 2026, Marizane relata ter recebido uma recusa revoltante. Após passar por uma triagem, foi informada pela recepção que seu filho não seria atendido por possuir “outras comorbidades”, como asma e um cisto no crânio. A justificativa dada à mãe foi de que a unidade estaria recebendo apenas pacientes “só autistas”, ignorando a complexidade do diagnóstico de Isaac, cujas comorbidades (TDAH e deficiência intelectual) estão diretamente associadas ao quadro neurológico severo.
Falta de medicação e abandono
A negligência do Estado se estende também à farmácia. O tratamento de Isaac inclui o uso contínuo de Aripiprazol (15 mg) e Amitriptilina (25 mg). No entanto, Marizane denuncia que há meses a Central de Medicamentos do Amazonas (CEMA) não fornece o Aripiprazol na dosagem correta, forçando-a a medicar o filho com uma dosagem inferior (10 mg), o que compromete a eficácia no controle da agitação extrema.
“O meu apoio sou eu mesma, não tem ninguém por mim não. Dói ver o governo ir para a televisão inventar mentira, falar de CAIC TEA e usar a gente para eleição”, desabafa a mãe. Queimada do sol de tanto peregrinar por unidades de saúde e já tendo acionado a Defensoria Pública do Estado, Marizane confessa estar adoecida e com pensamentos suicidas devido ao esgotamento absoluto.
Enquanto o Estado faz propaganda sobre centros especializados para o autismo, dentro de uma casa na Alvorada, uma mãe amarra o próprio filho pela perna para sobreviver a mais um dia de abandono. O caso de Isaac e seus irmãos escancara a urgência de uma intervenção real do Ministério Público e da Defensoria Pública na regulação de vagas e na garantia dos direitos fundamentais das pessoas com deficiência no Amazonas.

