Caos na Fundação Cecon: falta de luz e calote em servidores expõem colapso na Saúde do Amazonas; veja vídeo

Manaus — Antes conhecido como um centro de referência e acolhimento para o tratamento de câncer, agora se transformou em um verdadeiro cenário de horror e abandono neste sábado (20). Denúncias e vídeos gravados por pessoas que estavam na Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (FCecon), em Manaus, expõem a ferida aberta e a vergonha da saúde pública no estado: pacientes vulneráveis, dependentes de cuidados contínuos, foram deixados à própria sorte em meio a um colapso estrutural e de pessoal.
“Entregues às baratas”
As imagens registradas nos corredores da unidade são desoladoras. Dezenas de pacientes aguardavam atendimento improvisados em macas, cadeiras de rodas ou cadeiras de plástico comuns. O relato de um dos denunciantes é um pedido de socorro claro diante da inércia do Estado:
“O povo todo jogado aqui no corredor. Não tem recepção. Quando você chega, você fica entregue às baratas […] O povo padecendo aqui e ninguém pra atender.”
A denúncia aponta um esvaziamento total das frentes de atendimento primário do hospital. Não havia profissionais na portaria, na recepção e, mais grave ainda, na triagem. Pacientes oncológicos — que frequentemente apresentam imunidade baixa e complicações súbitas — não tinham sequer uma enfermeira disponível para aferir sinais vitais básicos, como pressão arterial e temperatura.
Salários atrasados e o colapso no atendimento
O motivo do abandono, segundo o relato de quem acompanhava o drama de perto, é um problema crônico na gestão pública de saúde do Amazonas: a falta de pagamento. A ausência massiva de funcionários neste fim de semana estaria diretamente ligada a salários atrasados, forçando uma paralisação não oficial que pune severamente aqueles que lutam pela vida.
Sem receber, os profissionais da saúde não comparecem; sem os profissionais, o sistema paralisa; e quem paga a conta, com a própria saúde e dignidade, é o paciente.
Apagão agrava o desespero
Como se a falta de médicos e enfermeiros não fosse suficiente, a unidade ainda enfrentou horas de falta de energia elétrica. Um segundo vídeo, gravado nos corredores em penumbra do hospital, reforça o clima de desespero. “O Cecon sem energia. Tá um caos”, narra uma mulher enquanto o som ambiente revela o vai e vem tenso de macas em meio à escuridão.
A falta de eletricidade em um hospital de alta complexidade coloca em risco direto o funcionamento de equipamentos vitais, o armazenamento de medicamentos sensíveis (como quimioterápicos) e o andamento de qualquer procedimento de emergência.
A conta da má gestão: Inércia da SES e a “herança maldita”
O colapso absoluto na Fundação Cecon não é um raio em céu azul, mas o resultado trágico e previsível de uma sucessão de gestões desastrosas. No centro desse abandono está a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM), que assiste passivamente ao desmonte de suas unidades, mostrando-se incapaz de garantir o repasse regular às empresas terceirizadas e o mínimo de dignidade aos servidores e usuários do SUS. O órgão, que deveria ser o pilar da organização hospitalar, cala-se diante de corredores lotados e apagões em centros de alta complexidade.
Mais revoltante, no entanto, é constatar o peso das escolhas políticas. O atual governo de Roberto Cidade, que assumiu o poder carregando o discurso de mudança e de reestruturação do Estado, na prática, engasga na própria ineficiência. A atual gestão se mostra paralisada diante da crise, limitando-se a apagar incêndios em vez de promover o choque de gestão prometido. Os pacientes do Cecon, espremidos no escuro, são a prova viva de que as velhas práticas de descaso continuam imperando no Palácio da Compensa.
É inegável que Roberto Cidade assumiu um estado sucateado pela profunda herança maldita deixada por Wilson Lima. Os anos de escândalos, alvos de operações policiais, superfaturamentos e precarização sistemática da rede pública durante o mandato anterior abriram um abismo financeiro e estrutural que sangrou a saúde do Amazonas. Contudo, justificar a incompetência de hoje com os desvios de ontem não salva vidas. A herança pode ser maldita, mas a omissão do atual governo é uma escolha política — e a fatura, mais uma vez, está sendo cobrada na vida de quem não tem sequer uma enfermeira para medir a sua pressão.








