Caso Pedro Henrique: bebê que morreu após negligência em cirurgia de fimose no AM faria 2 anos nesta terça-feira (28/7)

Amazonas – O dia que antes da tragédia era marcado por celebração e alegria, hoje se tornou uma data de luto e indignação para a família de Pedro Henrique Falcão Soares Lima. Nesta terça-feira (28/7), o menino completaria 2 anos de idade. A criança faleceu no dia 11 de dezembro de 2025, aos 1 ano e 3 meses, após um procedimento cirúrgico de fimose no Hospital Municipal Maternidade Eraldo Neves Falcão, em Presidente Figueiredo, no interior do Amazonas.
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A Dor da Ausência e a Luta da Mãe
Para a família, a lembrança de Pedro Henrique permanece viva nos detalhes do cotidiano. O menino gostava de correr atrás das galinhas no sítio, arrastar panelas ao lado da avó, brincar com o avô e ouvir músicas do cantor Pablo em sua caixa de som. Hoje, a ausência da criança tem sido um peso diário, com os avós frequentemente visitando o cemitério em busca de consolo e a irmã mais velha escrevendo cartas mensais para o menino.
A mãe de Pedro Henrique, Stefany Falcão Lima, que é enfermeira e trabalhava no hospital onde a tragédia ocorreu, tornou-se o principal rosto na luta por justiça. Ela tem protestado e cobrado autoridades, sentindo-se abandonada por parte da família e políticos locais. Segundo os relatos, a diretora da instituição na época, que é tia da mãe da criança, teria tentado embalsamar o corpo do bebê rapidamente no dia da morte, em uma suposta tentativa de abafar o caso para proteger o médico e o hospital.
Indiciamento e Irregularidades Médicas
A Polícia Civil do Amazonas indiciou o médico Orlando Ignacio Aguirre pelo crime de homicídio culposo (quando não há intenção de matar). A mãe de Pedro Henrique atribui o óbito a um erro na dosagem da anestesia aplicada durante a cirurgia.
O inquérito policial apontou que o médico agiu com negligência, revelando diversas falhas críticas:
- Falta de Monitoramento Adequado: O boletim de anestesia registrou a ausência de um capnógrafo, equipamento vital para monitorar a respiração e os níveis de dióxido de carbono do paciente.
- Descumprimento de Protocolos: A avaliação pré-anestésica, que deveria ocorrer na véspera do procedimento, não foi realizada.
- Documentação Irregular: O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) não tinha as assinaturas do médico e do responsável pela criança antes da cirurgia.
- Falta de Especialização Oficial: No dia do procedimento, o médico não possuía o Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em anestesiologia. Ele tentou registrar o título no Cremam apenas após a morte da criança, mas o pedido foi negado em março de 2026.
- Conflito de Interesses e Omissão: O hospital não comunicou a morte às autoridades no dia do ocorrido, e a Declaração de Óbito foi assinada pelo próprio médico investigado.
Laudo do IML e Próximos Passos
O caso começou quando a criança foi levada a uma Unidade Básica de Saúde (UBS) com dores no ouvido, ocasião em que o pediatra identificou a fimose e a encaminhou para avaliação e cirurgia.
O laudo de exame necroscópico do Instituto Médico Legal (IML) concluiu a causa da morte como indeterminada. O documento traz os seguintes detalhes:
- Pedro Henrique recebeu as medicações atracúrio, ketamina e propofol antes do procedimento.
- Logo após a aplicação das substâncias, os sinais vitais da criança caíram, resultando em sua morte.
- A traqueia do bebê estava livre de obstruções, o que descarta a hipótese de um bloqueio mecânico.
- O corpo só foi exumado 30 dias após o falecimento. O avançado estado de decomposição impediu a coleta de amostras para exames toxicológicos e histopatológicos.
Com a conclusão do inquérito pela Polícia Civil, o caso agora será analisado pelo Ministério Público do Amazonas (MPAM), que decidirá sobre a apresentação da denúncia à Justiça. A defesa da família classificou o indiciamento como um avanço, mas informou que solicitará ao Ministério Público a mudança do crime para dolo eventual, argumentando que o profissional assumiu o risco de matar.
Enquanto aguardam os desdobramentos judiciais, os familiares seguem clamando por melhorias na unidade hospitalar de Presidente Figueiredo, exigindo que a morte de Pedro Henrique resulte em mudanças estruturais para que nenhuma outra mãe passe pela mesma dor.


