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Tratamento VIP: Cooperativas sofrem calote de R$ 123 milhões enquanto Instituto ligado a médicos parentes de Roberto Cidade fatura R$ 15 milhões

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Tratamento VIP: Cooperativas sofrem calote de R$ 123 milhões enquanto Instituto ligado a médicos parentes de Roberto Cidade fatura R$ 15 milhões

Manaus – Um cenário de completo desequilíbrio, falta de transparência e suspeitas de um grave favorecimento político assombra a gestão da saúde pública no Amazonas. Enquanto as grandes cooperativas médicas amargam um calote colossal que já ultrapassa a marca de R$ 123 milhões entre os anos de 2024 e 2026, os cofres do Estado se abrem com impressionante agilidade para uma empresa específica. Trata-se do Instituto Médico de Clínica e Pediatria do Estado do Amazonas S/S (IMED-AM), que já faturou mais de R$ 15,8 milhões apenas no exercício de 2026. O grande escândalo por trás desse repasse milionário reside na composição da clínica beneficiada: a sociedade conta com médicos intimamente ligados e parentes do político Roberto Cidade.

O levantamento dos dados, apresentado inicialmente no final de julho de 2026, detalha a gravidade da dívida acumulada pelo Estado e o risco iminente à vida da população. A maior fatia desse montante assustador é devida à IGOAM, que tem mais de R$ 44 milhões a receber do governo estadual pelos serviços de Ginecologia e Obstetrícia. O cenário de terror se repete nas áreas mais sensíveis dos hospitais. A COOPATI aguarda o repasse de mais de R$ 33 milhões, enquanto na pediatria e neonatologia a situação é igualmente desesperadora: a COOPED acumula mais de R$ 21 milhões, a COOPANEO soma mais de R$ 17 milhões e a COOAP tem um passivo de mais de R$ 7 milhões. Ao todo, a dívida global ultrapassa os R$ 123 milhões.

O impacto desse calote prolongado e sistêmico já gera ecos de um colapso sem precedentes no atendimento à população em Manaus e no interior. A Coopaneo denunciou que a gestão estadual deixou de pagar de forma integral os serviços prestados em novembro e dezembro de 2024, acumulando ainda créditos indevidos referentes aos anos de 2025 e 2026. Diante da asfixia dos cofres, o Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam) e o Conselho Regional de Medicina (CRM-AM) decidiram elaborar uma dura nota técnica conjunta. O alerta severo preocupa as famílias amazonenses: a extrema inadimplência pode comprometer as escalas de atendimento em um período crítico, afetando outubro, novembro e dezembro de 2026.

A gravidade da situação mobilizou o Ministério Público do Amazonas (MPAM), que reuniu órgãos de controle para discutir a desastrosa gestão da saúde no Estado. Os órgãos de fiscalização observam que, enquanto a dívida cresce, os dados oficiais do próprio governo indicam uma queda inexplicável no percentual de recursos próprios aplicados em saúde. Esse índice despencou de 20,28% em 2025 para apenas 17,25% no ano de 2026.

Em contraste absoluto com a penúria das cooperativas tradicionais, os dados extraídos do Portal da Transparência Fiscal revelam uma realidade de bonança para o IMED-AM (CNPJ 04.812.092/0001-65). Apenas por parte da Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM), a empresa recebeu R$ 15.890.461,84 ao longo de 2026, somados a R$ 427.582,50 de exercícios passados. Os repasses foram distribuídos de maneira ágil e constante, com ordens bancárias emitidas rigorosamente todos os meses, sem a burocracia que trava os demais pagamentos.

Ao somar os repasses feitos também pela Fundação de Medicina Tropical e pela Fundação Cecon, o montante global pago à clínica chega a expressivos R$ 13.865.082,16 até os primeiros dias de agosto, além de R$ 937.396,78 em repasses de anos anteriores. O maior lote de pagamentos destinado à empresa ocorreu em um único dia, 7 de agosto de 2026, quando treze ordens bancárias injetaram R$ 3.133.645,92 direto nas contas da instituição. Esse lote milionário utilizou fontes de recursos distintas daquelas frequentemente usadas no restante do ano, ocorrendo na mesma semana em que o Estado anunciou um repasse geral para tentar acalmar o setor.

 

Essa espantosa agilidade no repasse de verbas públicas começa a fazer sentido quando o quadro societário da empresa é exposto. A IMED-AM tem entre seus sócios os médicos Jurimar Cidade Lopes Filho e Tamyres Binda Dias Cidade. A profunda ligação com o núcleo de poder do Estado vai muito além de uma coincidência de sobrenomes. Em uma postagem pública, o tio de Roberto Cidade, Antônio “Toinho” Cidade, homenageou os profissionais de sua família, citando nominalmente Jurimar Cidade Filho como “um dos médicos da família”. Outro registro de Dia dos Namorados comprova a relação matrimonial entre Tamyres e Jurimar, que são seguidos com atenção pelo perfil oficial do político.

Embora o IMED-AM opere com um quadro societário pulverizado, composto por mais de 300 médicos registrados, o que motiva a denúncia é o tratamento financeiro VIP dispensado a este CNPJ. Em meio a diversas cooperativas que sustentam as UTIs e amargam um calote histórico, a gestão estadual priorizou repasses milionários e em tempo recorde justamente para a sociedade que abriga familiares diretos do núcleo político de Roberto Cidade. A presença de Jurimar e Tamyres entre os sócios beneficiados levanta o grave questionamento: o parentesco político serviu como um “fura-fila” para o recebimento de verbas?

 

Para além dos ganhos conquistados na iniciativa privada por meio de contratos com a gestão estadual, membros desse núcleo familiar transitaram recentemente por cargos da administração pública. Através da Portaria N.º 0031/2024/GP, Jurimar Cidade Lopes Filho foi nomeado para exercer o cargo comissionado de Assessor de Diretoria 6 CC-9 nas estruturas do governo a contar de 1º de janeiro de 2024. O médico permaneceu na função durante o primeiro semestre daquele ano, sendo oficialmente exonerado do cargo a partir de 1º de julho de 2024, conforme documentado na Portaria N.º 1171/2024/GP. Embora o vínculo empregatício formal tenha se encerrado meses antes da explosão de repasses milionários registrados no exercício de 2026, a ocupação prévia de cargos de assessoria de diretoria demonstra a permeabilidade e a proximidade contínua dos sócios da clínica com a cúpula da máquina administrativa do Estado.

 

Para coroar esse obscuro cenário, há indícios de que o sistema de dados do governo mascara a natureza jurídica real da empresa. No Portal da Transparência Fiscal, o credor aparece cadastrado sob o nome de “Cooperativa Médica de Clínicos e Pediatras”. No entanto, a base de dados oficial da Receita Federal expõe a manobra: o CNPJ pertence a uma Sociedade Simples Limitada, não possuindo natureza de cooperativismo. Ao registrar a clínica como se fosse uma inofensiva cooperativa, a administração estadual camufla o direcionamento metódico de milhões de reais para o CNPJ de apadrinhados e familiares, enquanto os verdadeiros profissionais da saúde seguem esquecidos.

INSTITUTO MEDICO DE CLINICA E PEDIATRIA DO ESTADO DO AMAZONAS LTDA


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